Por
Dr. Viriato de Barros 
Colunista e Correspondente da FORCV em Lisboa
Desculpem-me insistir no mesmo tema, mesmo creio continuar a ser necessário perante tanta “guerra” e face ao riscos sérios de divisão que enfrentamos.
Falando de cabo-verdianidade, penso – e corrijam-me se estou errado – que há várias vertentes de cabo-verdianidade, respectivamente e por ordem alfabética, boa-vistense, bravense, fogueteiro ou foguense, maiense, salense, santiaguense, santo-antonense, santo-antonense, são-vicentino, mais referido como mindelense.
Tratando-se de um arquipélago formado por dez ilhas e cinco ilhéus, com nove ilhas habitadas, cada uma das ilhas povoadas foi-se tornando, ao longo dos séculos da sua história e nas condições específicas em que as diferentes comunidades dispersas pelas ilhas foram evoluindo e desenvolvendo-se, numa pequena nação insular, ligada às outras por laços de contiguidade geográfica e afinidade histórica e cultural e de dependência do Estado colonial sob cuja soberania se encontravam e donde partiam as normas gerais da sua administração, e de orientação educacional, cultural e religiosa.
Sendo a população das ilhas constituida essencialmente por descendentes de colonos portugueses com que as ilhas foram inicialmente povoadas, e africanos levados do continente africano para as ilhas no tráfico de escravos ou que até lá se deslocavam como mercadores, e, ainda, por judeus e europeus de diferentes proveniências, e que no decurso dos anos se foi modelando como nação, Cabo Verde adquiriu em consequência da misceginação entre os diferentes componentes da sua formação características novas, étnica e culturalmente herdadas das suas diferentes orígens.
Esta é uma realidade histórica objectiva que sobreviverá às correntes políticas ou ideológicas em voga neste ou naquele período da nossa história.
A misceginação foi mais intensa e generalizada numas ilhas do que noutras, pelo que algumas das ilhas apresentam mais traços de uma que doutra origem. É como resultado dessa diferença de grau de misceginação que se nota hoje, por exemplo, uma predominância maior de elementos étnicos ou culturais africanos na ilha de Santiago do que, por exemplo nas ilhas de Santo Antão, Brava, Fogo, S.Vicente, Boa Vista e Sal.
Penso que é necessário termos consciência clara e isenta de preconceitos das nossas origens e da nossa história, sobretudo nesta altura em que se assiste a um manifesto debate sobre a nossa identidade como nação que efectivamente somos, como cabo-verdianos, e em que parecemos dividir-nos em querelas de herdeiros de diferenças legados étnicos, culturais e outros.