Emigração: O factor critico da libertação da mulher Cabo Verdiana
Por: Luis Silva
Recentemente num jornal electrónico cabo-verdiano anunciava-se a morte dum cidadão cabo-verdiano, comerciante da ilha do Fogo, que deixara 84 filhos, sendo 40 reconhecidos, mas que possuía o seu próprio livro de registos em casa, onde tinha inscrito os 84 filhos. Havia mesmo prazer em citar o acontecimento como um prova da virilidade crioula... Em círculos fechados da emigração a noticia caiu como um balde de água muito fria: uma vergonha, pois ninguém analisou a maneira como o citado comerciante, o maior macho destas ilhas, teria conseguido fazer os 84 filhos. Por: Luiz Silva
Como é possível no Cabo Verde independente, há mais de 33 anos, não denunciar essas taras da escravatura e da colonização, face ao silêncio cúmplice dos jornalistas, intelectuais e homens políticos que prometeram criar um homem novo nestas ilhas após a Independência. Foi na esperança da construção duma nova sociedade cabo-verdiana que muitas mulheres emigrantes aderiram à luta de libertação de Cabo Verde, onde chegaram mesmo a empunhar as armas contra o colonialismo português.
Mas como a emigração liberta também a palavra, durante muitos anos auscultei, diariamente no mesmo comboio, algumas cabo-verdianas explicar as causas da emigração. Certo dia na minha habitual caminhada ao trabalho encontrei com a filha dum grande proprietário de São Vicente, que deixou filhos em todos os cantos da ilha e que somente reconhecia os nascidos em sua casa. Como morreu duma crise cardíaca, os muitos filhos não reconhecidos, chamados “filhos de fora”, não puderam beneficiar da herança necessária para prosseguir os estudos ou fazer uma formação profissional. Ela teve de emigrar clandestinamente para o Senegal, onde se casou com um patrício e mais tarde emigrou para a França, onde pôde consciencializar-se dos dramas da sociedade cabo-verdiana e triunfar na educação dos seus filhos. Ao pai, aquém se fez uma linda morna, tratando-o de “ alma pura e bondosa “ essa morna então mais a revoltava em relação à sociedade que a viu nascer dum grande abuso sexual. Ela jurou nunca mais regressar a Cabo Verde, mas teve de esperar 45 anos na emigração para regressar a Cabo Verde. Edward W. Said, sociólogo libanês, dizia no seu ensaio “Reflexions sur l’exil et autres essais “ o seguinte: “J’ai défendu l’idée que l’exil peut engendrer de la rancoeur et du regret, mais aussi affuter le regard sur le monde. Ce qui a été laissé derrière soi peut inspirer de la melancolie, mais aussi une nouvelle approche”.
Portanto, a mulher cabo-verdiana, mãe, namorada e esposa, tem inspirado tanto os nossos compositores como os nossos poetas e escritores. Eugénio Tavares foi sem dúvida o primeiro a fazer do amor um tema revolucionário na música cabo-verdiana: revolta melancolia contra o mar e as injustiças sociais que o separava da mulher amada; B.Leza cantou o amor à sua mulher Maria Luiza, “Mica”, em várias mornas interpretadas por Bana e Cesária Évora; Abilio Duarte , comprometido com a luta de libertação, canta o regresso para poder amar livremente na areia de Salamansa; Morgadinho canta o seu amor perdido na Guiné-Bissau na morna Cize; Jorge Monteiro, Jotamonte, canta sua Lulinha perdida no coração de Buenos Aires; Djodja, a residir na Guiné, canta o amor de mãe a viver na Terra-mãe; Tututa, eximia pianista, canta o amor para o filho; Jovino dos Santos e Luiz Silva num cancioneiro da emigração caboverdiana, editado em Paris, prestam homenagem à mulher e mãe emigrante; Manuel d’Novas, um dos maiores compositores nacionais, dedica várias mornas ao sacrifício da mulher e mãe.
Emigração e libertação
A emigração cabo-verdiana começa por ser masculina. Na sua primeira fase destinada à pesca da baleia conseguiu solidificar a família e investir na vida económica e social de Cabo Verde. Mas a fase mais importante da emigração começa com a fixação dos cabo-verdianos nos portos da zona leste dos Estados Unidos, onde os movimentos sociais, como o sindicalismo e também da emancipação da mulher, com salário e dignidade, deram então verdadeiras esperanças de libertação aos emigrantes cabo-verdianos. No quadro do seu projecto para América, estudar de dia e trabalhar a noite, como cita Baltasar Lopes no seu romance Chiquinho, o nosso emigrante não só regressou com dólares mas também com valores de justiça e dignidade que somente na América poderia conseguir. O reagrupamento familiar na América também transformara a vida das famílias cabo-verdianas: a mulher conquistava direitos como também as próprias crianças, que se libertavam das punições, do modelo violento de educação de Cabo Verde. A mulher podia trabalhar e conquistar um salário, participar nos movimentos de emancipação da mulher, estudar e participar na educação dos filhos e assumir livremente a sua sexualidade.
Mais tarde a mulher cabo-verdiana começa, por iniciativa própria, a emigrar para os EUA. É a primeira mulher africana a emigrar livremente para a América. A partir de 1924, com o encerramento da emigração livre para a América, a mulher consegue superar todas as barreiras e atingir à América seja pelo casamento ou clandestinamente. A influencia da América nas transformações sociais, económicas e culturais em Cabo Verde está na base da reinvenção da NAÇÃO CABO-VERDIANA, com sonhos de autonomia e mais tarde de Independência.
Paralelamente à emigração para a América, desde os fins do século XIX os cabo-verdianos fixam-se no Senegal contribuindo para a construção da cidade e do porto. Nos anos quarenta, face à impossibilidade de emigrar para a América e a não aceitação do Caminho Longe de São Tomé e Príncipe, surge uma outra iniciativa feminina para o Senegal, colónia francesa, onde a mão d’obra caboverdiana era muito apreciada. Considerada uma emigração pobre em oposição a emigração para a América, nunca os intelectuais e escritores cabo-verdianos da revista Claridade se debruçaram sobre a existência dessa comunidade de mais 40 mil pessoas nos anos 50. Verdadeiras aventureiras, clandestinamente partiam em pequenos navios para Dakar, graças à destreza dos nossos capitães e marinheiros, onde eram acolhidas pelos patrícios, que se encarregavam de as colocar nas famílias francesas. Assim como os cabo-verdianos da América investiram bastante na educação dos filhos que hoje desempenham altos cargos na administração senegalesa e em Cabo Verde. E já nos fins dos anos 50 a comunidade cabo-verdiana estava bem instalada no Senegal exercendo varias profissões, possuindo mesmo as suas empresas de construção civil, barbearias, comércio e navegação. A actividade cultural dos cabo-verdianos de Dakar foi muito importante na modernização da cultura cabo-verdiana: ali se forjou o mais famoso conjunto musical cabo-verdiano A VOZ DE CABO VERDE, com Bana, Luís Morais, Morgadinho, Toi Bibia, Jean Da Lomba o qual mais tarde se juntaram o Frank Cavaquinho e o Djosinha, homens do teatro de variedades como Eddy Moreno, Armando Russo e Valdemar Pereira, cantoras como Fátima Cabral e Celina Cruz e desportistas como Rito Alcântara, Toi de Dua, Faia Silva, Gabriel Silva. Em Dakar nasceram os primeiros movimentos políticos, a destacar Gabriel Fonseca, Paulo Faria, Augusto Couto e, com a chegada de Amílcar Cabral a Dakar, a maioria aderiu à luta pela Independência ao lado do PAIGC.
Esta comunidade cabo-verdiana no Senegal, com a Independência daquele país, começou a emigrar para a América e a Europa (Holanda e França). Um apelo lançado por doze cabo-verdianos que teriam abordado o porto de Roterdão convidando os cabo-verdianos a emigrar para a Holanda onde havia muita procura de marinheiros criou um largo movimento, apoiado pela sociedade civil, tanto em Cabo Verde como nas colónias de emigração. Se os homens partem para a Holanda as mulheres, muitas acompanhando as respectivas patroas, seguem para a França, constituindo pequenos núcleos em Mozelle, Marselha e Paris. A emigração dos caboverdianos para Portugal começa a partir de 1968 afim de responder à falta de mão d’obra devido a emigração portuguesa para a França e a guerra colonial. As actividades culturais dos cabo-verdianos da Holanda se estendem a todas as comunidades cabo-verdianas da Europa. Pais de grande tradição democrática onde o movimento feminista se reafirmou nos anos sessenta, levando as associações cabo-verdianas a preocupar com os direitos da mulher, com a contracepção, investindo na luta contra o Sida através de formação de jovens e adultos, de edição de cassetes sobre a prevenção, etc. As Casas racionalistas na Europa, chefiadas pelo Vitorino Chantre, através do desenvolvimento da espiritualidade, também contribuíram na luta contra o sida no seio juventude e também das famílias, através de palestras, de reuniões, de debates, etc.
Já nos fins dos anos sessenta havia uma emigração exclusivamente para a Itália à volta de 10 mil mulheres organizada pelos padres Capuchinhos em Cabo Verde. Espalhadas em varias cidades italianas, algumas mulheres têm prosseguido os seus estudos nos liceus e Universidades. O movimento associativo exclusivamente feminino tem também desenvolvido actividades sociais e culturais.
Em França já nos fins dos anos sessenta havia já uma grande presença de emigrantes, constituída na sua maioria por mulheres. Os acontecimentos do Maio de 1968 em França abriram um grande debate sobre a sexualidade e que se estendeu em todos os países da Europa Ocidentais até os Pirenéus. A mulher cabo-verdiana, seja nas fabricas ou nas casas das patroas burguesas, se interrogavam sobre a sexualidade e como assumi-la de forma independente. As rádios, os jornais e as televisões rompiam com os tabus cristãos e abordavam de forma independente a questão da sexualidade. Com independência financeira, sem depender do salário do marido, as mulheres passaram a assumir a sua sexualidade livremente ou na igualdade de direitos com o seu parceiro. As associações tanto em França como na Holanda e Itália publicavam textos sobre a contracepção, aderiam à luta contra o Sida com textos musicalizados e jornais. E quando elas regressavam à Cabo Verde continuavam na sua missão de formação dos homens e mulheres e em especial na luta contra o Sida.
Literatura e mulher
A moderna literatura cabo-verdiana possui um grupo significativo de escritores femininas como Dina Salústio, Margarida Mascarenhas, Fátima Bettencourt, Hermínia Ferreira, que se tem preocupado em levantar os problemas da condição feminina em Cabo Verde e na emigração. Os escritores da Claridade (1936...) também tiveram estas preocupações: basta ler os contos do escritor António Aurélio Gonçalves ou ainda o conto de Baltasar Lopes, A Caderneta, que foi vitima da Censura Colonial em Cabo Verde e que somente foi possível ser publicado em Portugal na revista Vértice. Nesta luta de emancipação das mulheres não se pode negar a contribuição do Liceu Gil Eanes em São Vicente onde tanto o Baltasar Lopes como o António Aurélio Gonçalves foram professores de varias gerações de cabo-verdianos.
Os governos sucessivos, após a Independência, têm investido bastante na educação, mas educação sem a ambição do enriquecimento da espiritualidade não provoca a evolução que tanto apostou os combatentes da Independência. A existência de varias Casas Racionalistas Cristas em Cabo Verde e na diáspora, doutrina filosófica baseada na evolução do homem através da espiritualidade, testemunham desta necessidade espiritual necessária para a construção do homem novo que tanto sonhou Amílcar Cabral. No prefacio a Felicidade Existe da autoria do autor racionalista cristão brasileiro Luiz Sousa este afirma: “a crise maior que se observa é de falta de carácter, de decência moral, de honorabilidade, e onde estiverem predominando essas características, o coeficiente espiritual é nulo em grande numero de indivíduos”.
As chamadas à mundialização seguidas duma liberalização económica, a entrega de grandes sectores económicos aos estrangeiros, não nos parece acertada no momento em que teremos de afirmar a nossa caboverdianidade conquistada nas cidades e portos do Mundo. Dois terços da população cabo-verdiana continua a trabalhar no estrangeiro. Falta-nos um projecto cultural e económico para a nossa emigração afim de evitar o fosso entre os emigrantes e a Terra-mãe. Mais do que nunca temos de lutar para reafirmar a nossa caboverdianidade na emigração e também desenvolver a nossa espiritualidade para uma evolução sadia da nossa sexualidade sem a qual nunca poderemos criar em Cabo Verde a sociedade justa liberta da escravatura e da colonização. E juntos, homens e mulheres, na igualdade e fraternidade.
Paris, 29 de Março de 2009
Luiz Silva