Por
Arsénio de Pina
Colaborador da FORCV em Lisboa
Escrito: Dezembro 2007
Arsénio Daniel Fermino de Pina, irmão do Dr. Viriato de Barros (Colunista da FORCV), é médico pediatra de carreira. Trabalhou na Organização Mundial de Saúde (OMS) em vários países africanos. Em Cabo Verde, foi responsável pela criação do Programa de Protecção Materrno-Infantil e Planeamento Familiar depois da independência. Currentemente aposentado, Arsénio passa temporadas em Portugal onde vivem os filhos e netos mas reside em São Vicente, Cabo Verde. Para além de manuais e outros textos da sua especialidade, também é autor de vários livros: Uli-me li!!; Fi d’cadon!; Você Falou em Economia de Bazar?; Mania de Pensar, “O cérebro, esse Órgão Perigoso”; Coisas doDjunga!...; Quel Canapê De Tr3s Pê; Reflexões e Factos Diversos. O seu próximo trabalho intitulado Passadores de Pau será publicado este ano.
O gongon é uma das figuras centrais do nosso imaginário colectivo popular, ao lado de canilinha, catchorrona e capotona, mais utilizado para meter medo e impor respeito às nossas crianças do que propriamente para assustar os manipuladores e glutões da economia e finanças mundiais, mas adopto a figura para o que pretendo tratar, por ser benéfica para os pobres, das benignas, como diria o malogrado colega e amigo, cientista de alto gabarito, escritor e poeta quase desconhecido (incompreendido ou mal amado?) entre nós, Doutor João Manuel Varela.
Em 1994 produzi um longo artigo sobre a China intitulado Os Chineses e os Direitos Humanos, no qual, entre outras coisas, fazia o elogio da diferença e do relativismo como traços dominantes da análise contemporânea das culturas, na apresentação do intelectual chinês Zhao Fusan. De vez em quando recorro à sabedoria chinesa citando Confúcio, Deng Xiaoping e outros, o que denota simpatia minha pelos chineses, que conheci mais de perto em Moçambique, onde tive colegas e amigos dessa nacionalidade nascidos e integrados na comunidade local, o que virá, seguramente, a acontecer entre nós com as gerações nascidas em Cabo Verde e aí educadas de mistura com as nossas crianças, convívio que fará esbaterem-se alguns padrões, hábitos e costumes dos pais e avós menos adaptados aos nossos, tornando as crianças, futuros adultos, mais cabo-verdianos na cultura do que chineses. Haverá, com o tempo e a convivência, uma verdadeira tracolança de etnias entre nós com benefícios mútuos e criação de novos biótipos, por vezes de beleza estonteante e sorrisos devastadores em mulheres (espero que as mulheres possam dizer outro tanto referente a homens nascidos dessa tracolança de raças…). A minha simpatia e solidariedade não provêm dos belos olhos das/dos chinesas/chineses, que até mal se vêem entre as cerradas fendas palpebrais em amêndoa, mas antes pelos seus êxitos económicos, pragmatismo, resistência física, capacidade de trabalho e adaptação, e também por terem sofrido tanto como nós a incompreensão, a exploração e a safadeza dos do Norte.
Actualmente, como país emergente (igualmente a Índia e outros do mesmo continente e da América latina), com capacidades e potencialidades para fazer frente em crescendo e com sucesso à concorrência das maiores potências económicas do Norte, contabilizando a compreensão dos chineses quanto ao sofrimento e necessidades dos países do Sul, por terem passado por períodos semelhantes, já que o sofrimento aproxima as almas do mesmo modo que o prazer une os corpos, quero crer que dentro da badalada, embora pouco operacional cooperação Sul-Sul, os nossos países colherão mais benefícios cooperando com a China e a Índia - quando este país puder imitar a China -, bem como com o Brasil e outros países emergentes, do que com os altamente industrializados (sem, no entanto, abandonar estes porque, com o tempo e os sucessos dos chineses e de outros povos entre nós, não terão outro remédio senão tomar juízo e perder esse ar de superioridade, se quiserem conservar o seu nível e qualidade de vida), até porque, com estes últimos, podemos tratar-nos por tu, recordando-nos da comum “inferioridade” imposta durante séculos pelos países industrializados.
Em África possuímos matérias-primas em barda que vêm sendo, século seculorum, exploradas pelos países industrializados e transformadas com enorme mais-valia e criação de postos de trabalho fora dos nossos países, com pouco ou nenhum proveito para nós, pelo que figuram com peso diminuto no comércio mundial – cerca de dois por cento; se alguma coisa melhorou em crescimento económico nos últimos tempos, isso deve-se à subida do preço do petróleo, não a qualquer mudança estrutural nas economias, como alguns apregoam e nos querem convencer, porque continua a faltar praticamente tudo – exceptuando a corrupção, a prepotência e o que há do piorio na relação humana -, na grande maioria dos nossos países: boa governança que saiba utilizar os recursos e não se limitar a enriquecer obscenamente os governantes e a entreter a corrupção – veja-se o luxo de alguns dirigentes africanos de países pobres que vieram ao Encontro UE/África com comitivas enormes e respectivas esposas que pasmaram os frequentadores de supermercados e boutiques de luxo com as compras que fizeram!; um empresariado dinâmico que não viva à sombra das ligações políticas ou étnicas e não deposite os seus lucros nos bancos do Norte; uma classe média – actualmente em vias de erradicação - com capacidade reivindicativa activa e uma sociedade civil combativa.
As parcerias económicas têm sido autênticas fraudes que estou farto de assinalar nas minhas charges jornalísticas: em verdade, liberalizar mercados industriais e financeiros, onde o Norte pontifica e é forte (isto é, eliminar as taxas aduaneiras nos nossos países e permitir a livre circulação de dinheiro), e manter os mercados agrícolas encerrados do lado europeu, onde a África pode ser competitiva [isto é, não aplicar as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), mantendo taxas aduaneiras elevadas e subsidiar os agricultores europeus e americanos para poderem apresentar preços baixos], são medidas que só poderão encravar mais a nossa vida económica, em particular dos nossos agricultores: os únicos beneficiários disso têm sido os países industrializados e os governantes indígenas desonestos e predadores das economias nacionais.
Não restam dúvidas de que a nossa oportunidade actual é a China, quanto mais não seja porque já experimentámos todas as cores (políticas) e feitios (as multinacionais) do Norte. A China, deficitária em matérias-primas, pretende aumentar a sua influência no nosso continente e está em busca de minérios e petróleo que não possui, valorizando melhor os nossos recursos. O mesmo acontece com a Índia, embora em menor grau, mas com tendência a aumentar. Esses países não fazem depender os empréstimos e ajudas, os investimentos e as parcerias conjuntas de dependência política, de práticas de boa governança e do respeito dos Direitos do Homem – estas últimas acusações dos do Norte, como se estes tivessem respeitado isso de facto e não somente em palavras: sem recuar muito no tempo para não falar na escravatura e tráfego de escravos, o Norte conviveu muito bem e com enorme proveito com o Apartheit, os Mobutus e Pinochets, vendendo armas e comerciando mesmo quando havia interdição e sanções internacionais, investindo e protegendo os venais; igualmente contemporizador com regimes considerados amigos e onde tem grandes interesses como a Arábia Saudita, Emiratos Árabes Unidos, Egipto, etc. Os “pruridos” humanistas só se aplicavam, ou aplicam com rigor quando os países eram, ou são pobres em recursos naturais, ou recalcitrantes em vergar a espinha.
Damo-nos conta, portanto, de que a China disputa à União Europeia e Estados Unidos as suas chamadas zonas de influência, obrigando-os, sem infringir as sacrossantas leis do liberalismo, a humanizar os seus procedimentos, o que será cada vez mais benéfico para nós. Tanto uma como outro encaram a China como o gongon da globalização e da concorrência, mesmo estando esta a respeitar as regras do mercado e da OMC, que os industrializados não cumprem quando há riscos de ganharem pouco. Como nos informa o comentador económico da revista Jeune Afrique, Alain Faujas, o liberalismo ocidental não pode protestar contra o baixo custo da mão-de-obra chinesa – cerca de trinta vezes inferior ao dos países industrializados do Norte – e, então, contesta o seu crescimento vertiginoso, os excedentes comerciais, a política monetária chinesa e o desrespeito dos Direitos do Homem. Realmente, o liberalismo ocidental encontra-se entalado sem saber como sair-se desse imbróglio, com uma emergente e concorrente China, que já pode apresentar produtos de qualidade a preços imbatíveis, um know how, outrora exclusivo dos países industrializados, e uma reserva colossal em dólares que assusta os EUA. O liberalismo ocidental vê-se à nora com um povo e governo que na falta de cão caçam com gato, e que, em vez de apanharem dez pulgas de cada vez com dez dedos, preferem, apanhar, seguramente, uma única com as duas mãos, como dizia Xiaoping.
Os chineses aceitam limitadamente as críticas ocidentais e prometem examiná-las com prudência, visto não pretenderem diminuir a bela dinâmica que tem contribuído para tirar da extrema pobreza 1,3 biliões de chineses e conter os protestos e as greves contra as desigualdades sociais de largas camadas de chineses.
Abramos um parêntese para tentar entender os chineses através de um dos seus monstros sagrados da cultura, Zhao Fusan, de quem vos falei detidamente no referido artigo de 1994, incluído em Fi D´Cadon!, sob o papel do indivíduo na sociedade chinesa. Ao contrário do ocidental, o homem chinês só se realiza quando toma consciência da sua dimensão social; considera-se como subordinado da sociedade. Não ir contra a sociedade, afirma Fusan, é, para cada chinês, uma preocupação séria, prioritária; é impensável na China insistir demasiado em si próprio. O individualismo está excluído da sociedade chinesa porque perturba a harmonia.
Quanto aos direitos humanos – que, de resto, evoluíram ao longo do tempo - , os chineses são pouco teóricos, têm espírito mais prático, terra-a-terra, não os encarando de modo estritamente individual. Onde o intelectual ocidental parte de hipóteses abstractas, um intelectual chinês parte da realidade. Na China, os Direitos do Homem consistem numa vida decente, no direito a ser alimentado, alojado e vestido. Os Direitos do Homem não são dissociáveis dos do povo a que pertence. Esta abordagem não é nem marxista, nem confucionista, mas, antes, fundamentalmente chinesa e popular. Entende-se bem que quem está no desemprego de longa duração, um trabalho regular, ou mesmo temporário e fracamente remunerado, já é uma benesse, mormente quando há esperança em melhores dias. Por outro lado, a filosofia chinesa defende que a História é cíclica. Esta perspectiva histórica a largo prazo ajuda-os a suportar e ultrapassar os seus sofrimentos, que encaram como etapas ou fases transitórias da vida que chegam, duram mais ou menos tempo e passam.
Dois ou três exemplos da performance chinesa dão-nos uma ideia da sua potencialidade e ajudam-nos a entender o receio, aliás, o medo gongónico dos países industrializados do Norte e os benefícios que nós, do Terceiro Mundo, poderemos retirar da emergência da China no mundo do comércio, da indústria e da globalização humanizada.
Prevê para 2008 um crescimento de 11 % do seu produto interno bruto (PIB) – 11,5 % em 2007.
A China não exporta armas (o maior produtor e exportador mundial de armas de todos os tipos é a América do Norte, seguida da França e Grã Bretanha), nem dá lições de moral; ajuda em assuntos de infra-estruturas, compra cobre, ferro, sisal, algodão, gás e petróleo. Tem ajudado na prospecção de petróleo, na construção de fábricas de transformação de matérias-primas e de valorização de produtos agrícolas – o que o Ocidente não fazia no tempo colonial nem após as independências –, na construção de represas, estradas, pontes, etc., etc., a preços nunca praticados pelo Ocidente.
Em 2007 produziu 500 milhões de telefones portáteis, o que equivale a 40 % da oferta mundial, com proveito para a África onde comprou a matéria-prima para isso –nobium, silício ou tântalo –, vendendo os aparelhos a preços imbatíveis em África.
Compra metade da produção de algodão da África Ocidental e vende tecidos a preços baixos, aceitando instalar indústria de tecelagem de algodão e de outros produtos agrícolas nos países produtores (contentando-se com o lucro da venda do equipamento industrial, o que os ocidentais raríssimas vezes fizeram). Imagine-se a melhoria da qualidade de vida em África quando pudermos transformar o nosso café, cacau, frutas exóticas, madeiras, minério, fosfatos, produtos haliêuticos, etc., em vez de os exportar em bruto por tuta-e-meia, para vir a comprá-los a preço de ouro transformados pelo Ocidente! E a China está disposta a ajudar-nos nessa via fornecendo-nos o know how e o equipamento necessário a esse fim, o que nos permitirá criar postos de trabalho e diminuir a vaga de emigrantes para o Norte.
A China recupera todas as pilhas e baterias usadas africanas e exporta novas a baixo preço, compra cobre e devolve-o em tubos e cabos eléctricos.
Em 1950, o comércio sino-africano era de 12 milhões de dólares; em 2006, passou a 55 biliões de dólares, tendo deixado um saldo positivo para os africanos de 2,1 biliões de dólares.
A China tem ganho, em detrimento da França (que sempre dominou o mercado africano), quase todos os concursos de construção civil e grande engenharia, afirmando-se cada vez mais nesse mercado.
Que concluir de tudo isso? Que se deixe a China em paz, dado que vem ajudando a África melhor do que qualquer outro país. A ajuda de 5 biliões de dólares prometidos à África de 2007 a 2009 vem sendo realizada, enquanto que os 55 biliões prometidos pelo G8 ficaram em águas de bacalhau.
O nosso governo é bem visto pela China, dado o seu comportamento leal e decente : ao contrário de muitos governos africanos que beneficiaram da cooperação chinesa durante largos anos e, ingratamente, decidiram, a troco de dinheiro, reconhecer o governo da Formosa (Taiwan), dinheiro que nem beneficiou o país por ter ido parar às contas dos presidentes, mantivemo-nos firmes ao lado da República Popular da China. Há que saber tirar partido disso no que a China puder continuar a ajudar-nos para o nosso desenvolvimento.