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Cabo-verdianos vítimas de xenofobia em Itália

 
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PostPosted: Mon Sep 01, 2008 1:14 pm    Post subject: Cabo-verdianos vítimas de xenofobia em Itália Reply with quote

NÁPOLES - Racismo e xenofobia aumentam na Itália, enquanto sindicalista cabo-verdiana é espancada pela Polícia de Nápoles. A sociedade italiana está enfrentando uma tendência à xenofobia e ao desenvolvimento de manifestações racistas, afectando sobretudo imigrantes e asilados de origem africana. Celeste Ramos, uma cabo-verdiana que reside na Itália há 32 anos, foi recentemente vítima de agressão policial, quando manifestava frente à Catedral de Nápoles.

Tudo começou na segunda-feira, 28 de Julho, quando um grupo de 112 imigrantes africanos ocuparam a Catedral de Nápoles para forçarem as autoridades italianas a instalá-los em habitações condignas, depois de o prédio onde residiam, no bairro de Pianura, na cidade de Nápoles, ter sido consumido 4 dias antes, por fogo posto supostamente por militantes da extrema-direita. 140 famílias, na maioria africanas, mas também italianas e europeias ficaram sem abrigo. De entre essas famílias 25 eram de origem cabo-verdiana. Celeste Ramos, uma activista social e sindicalista cabo-verdiana que esteve envolvida nos incidentes de 28 de Julho relatou-nos que depois de o fogo ter deflagrado, todas as famílias que residiam no prédio acomodaram-se à frente do edifício, porque não tinham onde ir. Havia também famílias italianas e de outras proveniências europeus. "Essas famílias foram logo reinstaladas, mas os imigrantes, sobretudo os de origem africana ficaram na rua", contou. Como exemplo do que qualifica de "discriminação étnica" Celeste Ramos, refere o caso de uma cidadã poláca e o filho de 8 anos que as autoridades contemplaram imediatamente com novas instalações: "Ela disse que aceitava, mas que tinha de levar consigo o seu marido. Tudo muito bem, até que surgiu o marido, um africano guineense. Aí disseram, não os africanos não vêm connosco". Como sublinhou a nossa interlocutora, esta discriminação põe a nu o racismo que se vive na Itália. "Esse é o primeiro ponto do racismo. Os italianos foram abrigados, mas os africanos não".

Volvidos quatro dia, sem que as autoridades municipais tivessem encontrado uma solução para as famílias desalojadas, 112 imigrantes africanos resolveram ir ocupar, pacificamente, a Catedral de Nápoles, o edifício mais simbólico da cidade. É aqui que Celeste Ramos, também membro da "Associação Mulheres no Mundo" que se ocupa de problemas socais, sobretudo referentes à imigração se vê envolvida nos acontecimentos em que ela e outros africanos seriam deditos e espancados pela Polícia. No princípio da tarde desse dia, Celeste foi à Catedral de Nápoles para se informar se algumas instituições italianas tinham dado alguma resposta sobre a possibilidade de alojar os africanos. A cabo-verdiana deixou claro que nem ela nem os outros africanos foram com o propósito de ocupar a Catedral. "Sei que é uma um edifício muito especial em Nápoles. Sou cristã, mas eu tinha que dar uma resposta a essa gente".

Celeste relata que quando estava dentro da Catedral, ouviu gritos na rua, mesmo à frente da Catedral e foram ver o que estava a acontecer. Então, viu a polícia a apanhar os africanos e a metê-los dentro de um carro branco que não era da polícia. "Logo pensei o que estava a acontecer. Fui indagar junto do responsável da polícia o porquê é que estavam a transportar os africanos. Disse-lhe que estávamos a fazer uma manifestação pacífica e que ao fim do dia ou de algumas horas, assim que alguém encontrasse uma solução para os desalojados, iríamos deixar a Catedral". "Não pretendemos ocupar a Catedral, estamos à espera de algumas respostas", disse ao polícia.

Celeste Ramos disse ao Expresso das ilhas que antes de terminar de falar, sentiu que se erguia do chão. "Eram cinco homens que me levantavam. Eu disse-lhes que não podiam levantar-me porque sou sindicalista. Então suspenderam-me e deixaram-me cair. Machuquei as pernas, mas consegui pôr-me em pé. Logo depois voltaram a me agarrar para me jogar dentro dessa viatura como um saco de batatas. Disse que não era preciso que eu entrava dentro da viatura sem recurso à violência". Entrou no carro, onde havia um africano. "A viatura fechou e dirigiram-se à esquadra. Então apenas começamos a sair da Catedral, os agentes da polícia começaram a espancar o africano. Perguntei: "porquê é que estão a espancar este rapaz. Como não paravam de o espancar comecei a gritar de tal forma que as pessoas que estavam nos passeios podiam escutar. Um agente mandou-me calar, mas continuei a gritar ainda mais forte. Então ele pisou-me nas pernas e no braço com as botas. Até ainda não tenho muita força no braço esquerdo. Insultou-me de todos os nomes, mas continuei a gritar e continuavam a dar porrada nesse rapaz. Gritei até que chegamos à esquadra". Na esquadra, como nos informou, depois de se apresentar como sindicalista foi tratada polidamente.

Como se pode ver na fotografia publicada por um jornal italiano, participaram na manifestação não só africanos como também italianos de diversas ONG's e associações humanitárias. A própria cabo-verdiana participou na manifestação enquanto membro da "Associação Mulheres no Mundo" que se ocupada dos problemas das mulheres imigradas.

Ramos disse que ficou surpreendida com a reacção brutal da polícia, porque tratava-se de uma acção pacífica, como muitas outras a que estavam acostumados a fazer. "Nunca contamos com esse desfecho", diz, indicando-nos no jornal que dedicou duas páginas aos incidentes, como todos os manifestantes estão com as mãos para o ar para significar que não tencionavam recorrer a actos de violência, "até porque tratava-se de uma reivindicação normal e legal". "Nós queríamos somente uma resposta para os africanos que ficaram sem casa. Nada mais. Por isso estão todos de mãos levantadas".

Como vem referenciado no jornal "Corriere del Mezzogiorno", Celeste classificou a intervenção policial de "violência gratuita". Como explicou, os manifestantes tentavam apenas resolver a situação dos desabrigados africanos. "O que eles fizeram não tem sentido. Eu não sou uma pessoa agressiva, não sou capaz de agredir a quem quer que seja. Quando vejo estas coisas, tento mediar", remata.

De acordo com Celeste Ramos, a xenofobia contra os africanos começou quando as autoridades deixaram as pessoas no meio da rua.
Já em Março do ano passado a ONU havia detectado tendências racistas e xenófobas na Itália. No relatório apresentado em Genebra, sobre a avaliação dos elementos discriminatórios em relação a estrangeiros, trabalhadores imigrantes, refugiados e candidatos a asilante, a ONU alertava que a sociedade italiana estava enfrentando uma tendência à xenofobia e ao desenvolvimento de manifestações racistas, afectando principalmente imigrantes e asilados de origem africana, mas também da Europa Oriental e a comunidade muçulmana.

Celeste Ramos está convicta de que a onda de racismo contra africanos é passageira, porque acredita que a maioria dos italianos são tolerantes. Mas vai deixando o recado. "Os italianos têm todos os direitos quando chegam a Cabo Verde de férias: também nós queremos ter esses direitos quando chegamos ao seu país. Se eles são bem-vindos em Cabo Verde, queremos ser bem-vindos na Itália também", sustenta.

Fonte: expressodasilhas.cv
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