Por
Dr. Viriato de Barros 
Colunista e Correspondente da FORCV em Lisboa
Dr. Viriato de Barros actualmente investiga temas de História, Literatura e Interculturalidade ligada a problemas de educação e inserção de imigrantes e é membro permanente do corpo docente do Centro de Estudos Multiculturais em Lisboa
LISBOA - Ao longo da experiência de un ano de ensino da lingua cabo-verdiana, na sua variante santiaguense, a falantes de outras línguas, diversas questões se me têm posto que tornam para mim urgente a necessidade de trocar experiências e ideias com outros estudiosos do nosso idioma, sobretudo nesta fase que actualmente vivemos de transição da predominância da oralidade para a fase escrita e de uma oficialização já em curso, ainda que num clima de controvérsia e polémica que leva a crer que as coisas, ou não foram suficientemente discutidas e debatidas, ou então que há entre nós hesitações e ambiguidades que necessitam de ser resolvidas.
Tendo em conta que, quanto a mim, ainda não se tomou uma decisão clara, consensual, quanto à norma a utilizar para a estandardização do que poderá vir a chamar-se língua cabo-verdiana que, como sabemos, comporta tantas variantes quanto o número de ilhas habitadas que constituem o arquipélago, as resoluções adoptadas a nivel parlamentar em Cabo Verde correm o risco de não serem viabilizáveis na prática, dada a resistência que uma grande parte da população tende a opôr ao que acham ser uma tendência para querer impôr-lhe, por decisão política de cúpula, a variante de Santiago.
Seja como for, a variante de Santiago tende tornar-se a neste momento na mais utilizada, estudada e aplicada em situações escritas, quanto mais não seja com o objectivo determinado de a formalizar e de demonstrar a sua capacidade e viabilidade de utilização como língua escrita para além das suas expressões poéticas em geral e na lírica musical em particular, que tem caracterizado até aqui a sua utilização.
Sim, porque o crioulo, salvo uma ou outra excepção, só foi utilizado como língua escrita, ao longo da história de Cabo Verde, na poesia e na lírica musical, cujos expoentes máximos foram Eugénio Tavares e Pedro Cardoso, na primeira metade do século XX e mais tarde por B.Leza, Frusoni, Jorge Monteiro (Jota Monte) e Jorge Monteiro, para falar nos mais frequentemente citados, pois que tão facilmente se esquecem nomes de tão admiráveis poetas compositores em crioulo como Julio Feijó (Juloca) Rodrigo Peres e tantos outros a quem Cabo Verde deve as mais belas criações musicais e que figuram como anónimos, quando nos nossos ouvidos ressoam as suas mornas, coladeras, funanás, finaçons e batuki, que nos cantam a vida de Santiago, no seu inconfundível, irresistível ritmo, ou as ribeiras de Santo Antão, de águas cantantes, ao ritmo das sua mornas, mazurca e coladeras, ou as vivências do Fogo, ao ritmo de rabolo, chotice, toada, e mazurca, como de São Nicolau, da Boa Vista, Sal, Maio, e da Brava, por onde é difícil passar sem lembrar Eugénio Tavares, entre muitos mais.
No período pré e pós-independêcia, prosseguiu-se na mesma linha da valorização nativista, ainda que numa temática predominantemente de intervenção política, e um novo impulso é dado por um uma nova vaga de poetas e compositores entre os quais sobressaem Manuel Faustino, Renato Cardoso e outros, de S.Vicente, Kaká Barbosa, Francisco Fragoso (teatro), na mesma linha, acho eu, de Kauberdiano Dambará ( Felisberto Vieira Lopes) . Não poderia aqui deixar de realçar o papel que músicos e interpretes cabo-verdianos como Zézé di Nha Reinalda, Pantera, Katxás, Jylito, Gardénia, Lura, Mayra Andrade, Nancy Vieira, os irmão Mendes,Danny Carvalho, Txeka e muitos mais, na vertente Sotavento, Amândio Cabral, Celina Pereira, Bana, Marino Silva, Djozinha,Titina, Cesária, Maria Alice, e tantos mais, na vertente Barlavento, alternando muitas vezes os interpretes a escolha da variante linguística, nalguns casos com admirável flexibilidade, noutros numa mistura de crioulos que por vezes parece obedecer às necessidades do ritmo e da cadência dos versos. Celina Pereira em particular vai além da difusão da música para a realização consumada de um excelente e cativante exercício didático de contatadora de histórias, daquelas histórias tradicionais que as crianças de Cabo Verde sempre ouviram e que fazem parte do imaginário de todos nós. E que dizer do trabalho desse outro grande contador de histórias, Horácio “Lalache” Santos, com as suas advinhas, sentenças e ditos populares de Santiago. Inesgotável a riqueza cultural das nossas ilhas.
Referi apenas alguns nomes mas há muitos mais, cujo valor e importância não serão seguramente afectados pelo facto de não terem eventualmente sido citados por simples lapso de memória.
A experiência de Luis Romano no crioulo de Santo Antão com a sua obra Lzimparim, foi uma das mais notáveis na literatura cabo-verdiana, ainda que muitas vezes seja referida num contexto negativo por quem acha a sua leitura difícil ou muito complicada de descodificar numa leitura espontânea, mesmo para falantes de crioulo. Todavia, a maior parte das pessoas com quem tenho trocado impressões sobre este livro de Romano, confessam desconhecer a existência do mesmo, e os poucos que sabem da sua existência afirmam ter desistido liminarmente da sua leitura pela dificuldade que dizem ter encontrado em descodificar o texto escrito em vernáculo santo-antonense. Não por não compreenderem essa variante de crioulo cabo-verdiano enquanto língua falada, mas pelo facto de a sua forma escrita não reproduzir automaticamente a reprentação mental da língua falada. Curiosamente muitos dizem que só começam a realizar essa representação depois de fazer uma leitura em voz alta do texto, apesar da dificuldade de sua leitura.
O que é que se passa aí?
Certamente o facto de não nos termos familiarizado ainda com com a utilização do crioulo, em qualquer das suas variantes, na sua forma escrita, em prosa, quer de base etimológica, quer fonético-fonológica, tem muito, senão tudo, a ver com isso.
Mais recentemente outros escritores cabo-verdianos têm publicado obras em prosa na língua cabo-verdiana, predominatemente na sua variante santiaguense, entre os quais destacamos”Odju d’Agu” , com que Manuel Veiga, concomitantemente com os seus estudos sobre o crioulo e sua estrutura gramatical, incluindo naturalmente os aspectos fonético-fonológico, demonstra na pratica as suas posições sobre a capacidade do crioulo como língua literária a todos os níveis, “Na Boka Noti” e “ Na Konparason di Konbersu” de Tomé Varela, “Son di Virason” de Káká Barbosa, “Amen na Nha Xintidu” e “Vagens de Sol” de Danny Spínola.
Em publicações on-line, Zizim Figueira e “Dr.Azágua” têm-nos brindado com valiosos textos em crioulo, cada um deles na sua variante, e há um excelente repertório de textos em crioulo que nos vem proporcionando uma saborosa leitura no Forum do FORCV, que constituem outra importante contribuição para o desenvolvimento da língua cabo-verdiana, nas suas diferentes vertentes.
Penso que oficialização do crioulo, para além de uma decisão política, ou de acto burocrático, só terá significado como um processo cujo objecto último será o pleno desenvolvimento de uma lingua livre de preconceitos e de qualquer forma de repressão ideológica seja ela qual for. Não é por acaso que se diz que o povo faz a língua. Teríamos que recapitular toda a história, essa que conhecemos mais de perto, para acompanhar o percurso de evolução do latim falado por Cícero, ao italianao como é falado hoje, ao espanhol, português, galego, francês, romeno, para não falar no açoreano e madeirense, e se formos até Aruba, Coraçao, Martinica, para não falar nos papiamentos de Sri Lanka e outros lugares, ainda encontramos raízes do latim, mas que já não é o de Cícero, nem de Ovídio, nem de Seneca.
Penso que a tendência da humanidade é para a aproximação maior dos povos e para encontrar fórmulas ou códigos mais fáceis e flexíveis de universalização, de comunicação entre os homens neste planeta de tantas conturbações. Comunicar é importante, é tão importante que muitas guerras e outros conflitos resultem fundamentalmente de uma falta ou de falhas por vezes decisivas de comunicação. Há linguas que por circunstâncias históricas várias e pela sua própria natureza e maleabilidade se tornaram mais universais, como é o caso do inglês, e ninguém se lembra hoje de contestar a sua posição e muito menos por razões de ordem nacionalista ou mesmo patriótica, sob pena de sacrificar aspectos verdadeiramente importantes da sua vida como países. E esse inglês não obedece necessariamente o modelo de Oxford, Cambridge, ou o cockney de Londres, sem qualquer desprimor naturalmente, por essas variantes, ou já agora pela variante de Baton Rouge, ou New Orleans, ou Harlem.
Defendo e luto pela valorização, pelo estudo e desenvolvimento livre daquilo que será uma língua cabo-verdiana. Mas luto e defendo a preservação e valorização da língua que constitui um património histórico e cultural de Cabo Verde e dos Cabo-verdianos: a língua portuguesa. É uma vantagem, não é um obstáculo. Talvez tenha que rever a metodologia de ensino do português em Cabo Verde, tendo presente que os cabo-verdianos são primeiro falantes de crioulo, e que o português é a língua que sempre utilizaram e continuam a ultilizar, quanto mais não seja por razões de ordem pragmática e se calhar até com um certo apego à sua própria história e origens. É evidente que quando falamos da diáspora cabo-verdiana, temos de ter em conta que as comunidades imigrantes se inserem em sociedades de paises onde as respectivas linguas são outras que não o português. E aí a questão põe-se, naturalmente noutros termos. Já noutro texto abordámos a questão da Educação Bilingue dos cabo-verdianos na America. Somos um povo de emigrantes e a necessidade de emigração ensinou-nos capacidades de adaptação e uma forma de estar no mundo. Mas é como cabo-verdianos que nos identificamos, um povo com uma identidade cultural que faz de nós uma nação, onde quer que estejamos. E não tenhamos dúvidas, o traço cultural mais forte que nos caracteriza e une é a nossa língua, a que chamamos crioulo, e que é de facto a língua materna dos cabo-verdianos.