“O Sul da Diáspora. – Cabo-verdianos em Plantações de São Tomé e Principe e Moçambique...”
By Dr. Viriato de Barros
FORCV Columnist & Correspondent in Lisbon
Creio ser uma simples evidência histórica que os países desenvolvidos atingiram os diferentes estádios de desenvolvimento das sociedades que encerram a partir do que ficou conhecido na história universal como Revolução Industrial. Não vamos aqui rever esse processo desde a invenção da “Jenny” e da máquina a vapor e seus derivados, e da importância que as matérias primas passaram a ter, por um lado na produção de energia, e por outro na fabrico de diferentes produtos de consumo para alimentação, vestuário, e manutenção de hábitos identificados como de uma civilização e assim por diante, mas tão sómente partir daí para os modos e as relações de produção criados e desenvolvidos por aquilo que classificamos como sistema colonial, e do fosso aberto entre os paises industrializados, ou sejam, os paises desenvolvidos por essa via, e os outros paises, transformados em meros fornecedores de matéria prima e mão-de-obra, primeiro forçada e gratuita ( escravatura) e depois sob outras formas de exploração, que foi o propósito essencial, básico, primário do sistema colonial. A difusão da “civilização”
( europeia)e da cultura ( europeia) e da fé, (cristã, ou que por cristã era tida, no caso português) como elemento apaziguador de costumes, vinha por acréscimo, com objectivos fundamentalmente utilitários. A “ladinização” dos escravos praticada em Cabo Verde tinha por objectivo sobretudo preparar os africanos arrancados violentamente do seu meio para serem vendidos como mercadoria, para melhor servirem os seus donos. A permanência temporária dos escravos destinados a serem vendidos aos donos das plantações do sul da América do Norte, aos senhores do Brasil e outras paragens tinha essa função. O mesmo se fazia com os cavalos que eram levados para Cabo Verde para aí serem aclimatados, antes de serem re-exportados para diferentes destinos do mercado de cavalos de raça.
Factos da história da humanidade, poder-se-á dizer, em que nenhum povo povo parece estar sem pecado, se formos ver a história da escravatura e da exploração humana no mundo, mas em que os Africanos - vá-se lá saber porquê – têm sido as vítimas de eleição.
Estas considerações vêm a propósito do livro de Manuel Nascimento, “O Sul da Diáspora – Cabo-verdianos em Plantações de São Tomé e Principe e Moçambique.”
A minha primeira reacção após a leitura deste livro a exclamação que repeti à primeira pessoa que me perguntou se já o tinha lido: “Impressionante!” Penso que essa consonância, idêntica e imediata, tem a ver com o facto de ambos termos vivido em São Tomé e conhecido de perto a realidade dos trabalhadores cabo-verdianos contratados para as roças de São Tomé Príncipe no mesmo período da nossa história, período de forte consciencialização dos cabo-verdianos politicamente atentos e engajados na defesa da sua terra e da dignidade do seu povo. Falo de Onésimo da Silveira, porque foi sem dúvida dos cabo-verdianos cuja passagem por São Tomé deixou uma das marcas mais notáveis.
O livro de Augusto Nascimento é impressionante pelo rigor e pela
meticulosidade do testemunho que nos presta sobre a realidade da migração cabo-verdiana para São Tomé e Moçambique. Mas é-o sobretudo pela honestidade politica com que o faz. Só de um trabalho meticuloso e aturado de investigação e do contacto directo com a realidade sobre a qual escreve é possível apresentar uma obra deste mérito e interesse para quem queira, de facto, conhecer a nossa história, para além das conveniências políticas circunstânciais e critérios de acomodação ideológica.
Antes de prosseguir, tomo a liberdade de retirar da edição que tenho em mãos do livro uma nota biográfica sobre o seu autor.
Augusto Nascimento nasceu em Liosboa a 28 de Março de 1959. Licenciou-se em História na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, em 1981. Trabalhou como professor cooperante em S.Tomé e Príncipe entre 1981 e 1987, facto determinante na definição da sua posterior trajectória intectual. Em 1992 obteve grau de Mestre e em 200 o de Doutor com a dissertação intitulada Poderes e Quotidiano nas Roças de S.Tomé e Prícipede Finais de Oitocentos e meados de Novecentos, apresentada na Universidade de Lisboa. Hohe ele é um dos mais conceituados investigadores da História de S.Tome e Principe e das comunidades imigrantes que naquele arquipelago viveram.
Acrescentaria vivem, pois muitos cabo-verdianaos que foram para São Tomé e Principe como contratados para trabalhar nas roças no regime colonial vivem ainda em São Tomé por nunca terem tido a possiblilidade de regressar às suas ilhas, findo os seus contratos de trabalho ou esvaziados de significado jurídico pelas contigências históricas, no limbo da das irresponsabilizações reciprocas.
Não resisto a transcrever a propósito a seguinte passagem do artigo “Cabo-verdianos em São Tomé e Prícipe: do chapéu de chuva à pátria na mão”:
No tocante à trajectória dos cabo-verdianos, como em relação a tantos outros aspectos, a história do pós independência de S.Tomé e Príncipe queda por fazer. Com razoável certeza, dir-se-á que na euforia da vindoura independência não houve competente negociação com o Movimento de Libertação de S.Tomé e Príncipe sobre o destino dos cabo-verdianos que, à data da independência, formavam a maior comunidade de serviçais. Aparentemente o MLSTP, que não estava interessado na partida dos cabo-verdianos, conseguiu aliciar parte deles. Alguns testemunhos aludem a promessas do MLSTP de cedência de terras aos cao-verdianos que poderiam, finalmente, realizar o seu sonho numa terra então dita irmã. Na verdade, só no plano do voluntarismo político assim se poderia considerar, mas, forçoso é pensá~lo, tal lema político encontrava força nas inóspitas e difíceis condições de Cabo Verde. À data da indepedência, os cabo-verdianos foram enconrajados a ficar pelo governo independente que terá negado vistos de saída aos que não tinham posses para os adquirir. Por razões várias, uma fracção substancial de 9000 indivíduos, a que acresciam cerca de 6500 menores, permaneceu no S.Tomé independente, enquanto a quase totalidade dos outros serviçais deixou o arquipélago.”
E mais adiante:
“Por entre equívocos própios dos processos de célere mutação social e política, ao colonialismo sucedeu-se um regime político que não favoreceu, antes pelo contrario, a afirmação social da comunidade cabo-verdiana em São Tomé e Príncipe. Se é possível aceitar, com reservas, a hipótese da oposição racial imanente ao colonialismo sobrepujar as clivagens entre segmentos de serviçais, a verdade é que a independência colocava o poder no centro do relacionamento entre nativos e ex-seviçais. No plano político, a tutela paternalista do poder a coberto da ideologia e da retórica de teor progressista visou estancar a competição que poderia ter permitido a afirmação da comunidade cabo-verdiana. Tendo a homogeneidade social como objectivo social, a política pós idependêcia combateu todas as manifestações de diferença; do ponto de vista da racionalização dessa política, argumetar-se-ia, se tal tivesse sido necessário, que a promoção social e jurídica sobrevinda com a independência dispensava qualquer aspiração à diferença. Em todo o caso, se a reverberação ideológica frisava a meta política de integração social, a verdade é que esta se restringia à base da pirâmidade social. No plano económico, e estrutura de poder e de propriedade fundiária – mantida intocada, salvo no respeitante á titularidade – condenou os cabo-verdianos e a generalidade dos trabalhadores das roças à marginaidade, agravada por uma involução dos padrões de vida e pela drástica rarefacção das oportunidades económicas. Então, à constatada marginalidade social sobrevieram as demandas de repatriamento de cabo-verdianos para que faltaram os meios. » ( Fim de citação)
O livro consta de varias artigos que o autor considera com sendo um modesto contributo para a história das migrações cabo-verdianas, segundo ele ainda por fazer, não obstante valiosos contributos como os de de António Careira e de Ana Saint- Maurice. Para nós, este trabalho de Augusto de Nascimento é, sem dúvida, uma das mais importantes contribuições existentes para o conhecimento e para uma avaliação mais rigorosa de todo esse processo, dos tempos coloniais á situação presente.
Propõe-nos os seguintes títulos:
-“ A evolução da politica colonial e os padrões de recrutamento dos cabo-verdianos para S.Tomé”, em que expõe os meandros da política colonial que conduziram ao recrutamento de trabalhadores de Cabo Verfde para São Tomé nos anos Novecentos.
- “ Representações Sociais e arbítrio nas roças: as primeiras levas de cabo-verdianos em São Tome e Príncipe nos primórdios de Novecentos” onde aborda os “conflitos, a composição social num contexto de dominação, a reafirmação da cidadania e, por entre as injustiças justificadas pela emergência de um pensamento hegemonizado pelo racismo, a imposição de um limite ao arbítrio dos roceiros, a saber, o do cumprimento dos contratos, designadamente no tocantes à repatriação”
- “Réplicas do esteriótipo: caboverdianos em Moçambique nos anos 1940 e 1950” em que analisa a presença de cabo-verdiana naquela antiga colonia portuguesa do Indico, como resultante de negociações equivocadas e assentes na permuta de favores entre empresas e o governo, abordando a ideia de esterótipo do cabo-verdiano utilizado pelas sociedades proprietárias de plantações em Moçambique como arma para se livrarem do que passou a ser para eles um incómodo encargo social imposto pelo governo de Lisboa.
-”Mulheres e ordenamento social nas roças em São Tomé e Principe”
Onde trata o tema das posição das mulheres cabo-verdianas contratadas para São Tomé e Principe para efeitos do que o autor chama “engenharia social e pólitica de São Tomé e Príncipe”.
O autor propõe-nos ainda na sua colectânea o trabalho “Cabo-verdianos em São Tomé e Principe: do chapéu de chuva às pátria na mão”, do qual tomei a liberdade de vos citar algumas passagens, pela forma claramente elucidativa como me parecem representar este testemunho de Augusto de Nascimento.
Esta é um obra de extrema oportunidade, cuja leitura se torna inadiável para quem queria entender esse caminho longe para São Tomé e outros caminhos, caminhos de sobrevivência e defesa de dignidade, empreendidos pelos cabo-verdianos como homens, mulheres e, de que maneira, como crianças, ao longo da sua história.